
Nossa colunista nos bastidores do “Programa Gisele Almeida”, comandando seu quadro “Educação com Roberta Pimentel” que vai ao ar toda segunda-feira às 10h30min na TV Matogrosso, canal 27.
Mamães,
O artigo de hoje é extenso, mas é de suma importância nessa época de excesso de tarefas na vida das crianças.
Nos preocupamos tanto em estimular nossos filhos, que nos esquecemos de observar as suas reações, o que é o mais importante.
Leiam com bastante atenção, o texto é complexo, mas interessantíssimo e no final a Roberta deixou algumas dicas bem reflexivas e úteis.
Como ela mesma me disse via e-mail: “Boa leitura, ou melhor; bom estudo”. Rsrsrs!
Beijos Marcela
Estimulação Precoce x Prevenção Precoce das Dificuldades na Aprendizagem
Há cerca de uma década estudo e pesquiso questões relacionadas à prevenção precoce das dificuldades na aprendizagem. Esse interesse surgiu naturalmente, desde a época da minha formação inicial no magistério.
É um assunto que desperta o interesse de diversas famílias, pois quando se fala em prevenir precocemente possíveis dificuldades na aprendizagem, consequentemente tem relação direta com maiores possibilidades de sucesso escolar.
Não consigo conceber uma educação de qualidade ou uma sociedade mais justa, sem pensar em melhores garantias de sucesso para as crianças que apresentam desde muito cedo indícios de obstáculos que futuramente poderão dificultar os avanços nos estudos, quer seja na escola ou fora dela.
Para tudo na vida há exceções e, por isso, não sou de generalizar as coisas, mas cada vez mais estou convencida de que enquanto pais e escolas não priorizarem a prevenção precoce das dificuldades na aprendizagem, vejo que o percurso escolar e de desenvolvimento global das crianças será muito mais sofrido que o necessário.
Não estou tratando de aprendizagem escolar de forma geral, estou me referindo a casos familiares em que há obstáculos para as crianças, ou melhor, barreiras que dificultam uma trajetória tranquila de desenvolvimento escolar (atrasos, deficiências, comportamentos atípicos, entre outros).
Logo, o artigo de hoje é específico para famílias que estão preocupadas com alguns sintomas e dificuldades. Que não estão satisfeitas com os progressos dos filhos na escola ou que estão inquietas com essa questão.
Vejam bem. Quando as crianças nascem, muitas vezes passam por desafios que interferem negativamente em seu desenvolvimento ao longo dos anos. Exemplo para explicar melhor: uma criança que nos seus primeiros 6 anos de vida passa por constantes dores de ouvido, com crises repetidas de otite, pode futuramente sentir dificuldade em escrever as palavras nas normas gramaticais corretas e, até mesmo, apresentar pronúncias diferentes e trocar alguns sons.
Isso pode ocorrer porque durante a construção da base de aprendizagem da fala e da escrita, ela passou por dores e inflamações no ouvido que podem ter interferido na escuta das palavras, no modo como os sons chegavam às vias neuronais responsáveis por essa área. São casos em que com cerca de seis meses de trabalho clínico o quadro pode ser aprimorado e nenhuma sequela grave se instala de fato, o desafio é superado e pronto.
Temos com isso um caso ótimo para ajudar a explicar o que venho desenvolvendo em termos de prevenção precoce. Se esse fato relatado acima passa muito despercebido pelos adultos que vivem ao redor dessas crianças, elas poderão sofrer além do necessário. Quando pais e escolas se atentam verdadeiramente a cada detalhe do desenvolvimento infantil, podem interferir positivamente, não permitindo que os casos se agravem. Isso é prevenção precoce, serve como exemplo!
Constantemente alerto pais e professores de que é muito sábio da parte dos adultos adotarem posturas preventivas no dia a dia! Infelizmente, clinicamente vemos que muitas escolas e famílias só se dedicam aos problemas que envolvem dificuldades na aprendizagem depois que a criança já passou dois ou três anos com alguns sintomas. A justificativa é sempre semelhante: “não achei que seria algo importante, pensei que com o tempo a situação mudaria”.
Sim, muitas vezes esperar o tempo passar é ótimo, mas quando envolve desenvolvimento motor, da fala ou da escrita, o melhor a se fazer é a prevenção (ajuda clínica com psicopedagoga (o) é totalmente indicado, pois essa é uma área que lida especificamente com isso).
Por outro lado, vejamos uma discussão que não pode JAMAIS ser confundida com o que tratamos nos parágrafos anteriores: prevenção precoce das dificuldade na aprendizagem é uma coisa, mas outra bem diferente é a estimulação precoce do ponto de vista da imaturidade neuronal. Estímulos antes do momento adequado também podem interferir negativamente.
Semana passada, tivemos em Cuiabá uma palestra com a Dª Telma Pantano. Entre muitas reflexões maravilhosas, ela também conversou com o público sobre sua preocupação com a estimulação precoce, um tema tratado muitas vezes sem a complexidade que o assunto exige.
Certos desafios para as crianças são totalmente desnecessários, uma vez que áreas do cérebro precisam estar ‘maduras’ antes que algumas atividades lhes sejam disponibilizadas.
O que estou querendo alertar com tudo isso? Muitas vezes algumas famílias, quando percebem certas dificuldades em seus filhos, no intuito de ajudar, matriculam as crianças em várias atividades extras, compram muitos materiais lúdicos ou eletrônicos e acreditam que várias estimulações ajudarão. Eis um grave problema! Com isso podem não ajudar a tratar a causa da dificuldade e o problema persistirá. Por isso é tão importante falarmos de assuntos como esses.
A Drª Telma frisou que é importante pais e professores não abusarem de estímulos, pois a maturação das áreas neuronais muitas vezes ainda imaturas, na verdade são inatingíveis e se tornam algo negativo. Ela não falou de estímulo precoce em relação à prevenção precoce, eu é que fiz essa ponte, pois há uma relação muita direta entre os temas.
Extremamente relevantes esses alertas apontados, pois na contemporaneidade alguns pais e escolas pecam por excesso de zelo, por exagero de boas intenções. Determinadas atividades oferecidas para as crianças acabam por afastá-la de outras que seriam mais importantes. Ou seja, para não esquecermos: estímulos precoces de forma aleatória não contribuem com prevenção precoce. Para prevenir as dificuldades na aprendizagem os estímulos precisam ser muito bem elaborados e necessitam primordialmente de adequação com a maturação neuronal de cada indivíduo.
Outra questão que vale ser destacada:
O brincar livre e o faz de conta são fatores estruturadores da saúde emocional das crianças e não podem ser substituídos por estímulo precoce. Essa é uma reflexão que me veio à cabeça no dia da palestra da Drª Telma, e me fez bem, pois tem absoluta relação com fatores que defendo em meus estudos, pesquisas e artigos.
O que importa muito é permitirmos às nossas crianças que sejam verdadeiras crianças, que vivam e usufruam de sua infância e, sempre que necessário que recebam o olhar atento dos adultos para ajudá-las a superar os desafios inicias na primeira infância, reduzindo fatores negativos para o futuro.
Frases reflexivas para colaborar com a explanação desse assunto:
Da perspectiva do estímulo precoce…
* Melhor do que dominar recursos tecnológicos na primeira infância é saber brincar livremente.
* Melhor do que brincar de luta, é estar envolvido com jogos de encaixe, com livros e brinquedos criativos.
* Muito melhor do que assistir novela e outras futilidades televisivas é manusear massinha, desenhar com diferentes recursos (tinta, giz de cera, canetinha fina ou grossa), ou algo nesse sentido.
* Melhor do que ficar correndo pela casa, sem rumo e sem objetivo, é propor desafios para as crianças: montar um objeto com sucata, construir algum desenho, enfim, que recebam desafios que chamem a atenção.
*Melhor do que mandar os filhos brincarem é brincar com eles por 15 ou 20 minutos e depois desafiá-los a continuar sozinhos. É difícil, mas quando insistimos, com o tempo se tornará natural!!!!!
Da perspectiva da prevenção precoce das dificuldades na aprendizagem…
*Pensar em prevenção precoce do ponto de vista do sucesso escolar no futuro, deve ser algo valorizado por toda a sociedade e não apenas por famílias e escolas.
*Pais e famílias precisam dedicar bastante atenção aos mínimos detalhes ao longo do desenvolvimento dos filhos, e não deixar para procurar ajuda somente lá na frente, depois de alguns anos. Se família e escola deixam o tempo passar, as situações se agravam severamente, pois os comportamentos atípicos passarão a fazer parte do funcionamento cerebral.
*Prevenir precocemente as dificuldades na aprendizagem significa propor intervenções que amenizem os primeiros sintomas de obstáculos ao desenvolvimento integral, e consequentemente diz respeito à posturas muito atentas dos responsáveis pelas crianças, sejam os pais, as babás, a escola ou avós.
Esse tema é muito complexo, tenho certeza que alguns leitores sentirão falta de uma coisa ou outra, peço gentilmente que registrem no comentário suas preocupações ou dúvidas. Ao mesmo tempo já adianto que na próxima semana teremos mais um artigo que complementará o assunto de hoje. Já estou elaborando um material que facilitará aos pais e profissionais da área uma melhor compreensão sobre os aspectos mais comuns que se apresentam como barreiras e dificultam ao aprendizado escolar. Aguardem. Espero que por hoje tenham gostado do que escrevi para cada leitor (a).
Com carinho, Roberta Pimentel.